Review – The Legend of Zelda: Breath of the Wild

O prazer da redescoberta

Voltar ao mundo de Hyrule em Breath of the Wild é como viajar no tempo, mas com uma sensação de desconhecimento. O lendário reino configura-se agora como um mundo aberto, pronto para ter cada centímetro explorado, para suscitar memórias e ocultar segredos. O mais recente game da franquia Legend of Zelda apresenta uma realidade repleta de elementos capazes de evocar a nostalgia, mas, ao mesmo tempo, capazes de proporcionar ao jogador o prazer da redescoberta.

Ao despertar de um sono que durou 100 anos, Link é um herói sem história, sem recordações e pretensões, mas que carrega um artefato semelhante a um tablet consigo.  Logo de início Breath of the Wild sugere a exploração, uma vez que não existem indícios ou caminhos que direcionem a respostas claras sobre o que fazer ou para onde ir. Intencionalmente, o game realiza uma introdução quase que panorâmica de Hyrule, como se apresentasse uma tela branca a um pintor.

Cada ambiente existente no universo é capaz de proporcionar um tipo de experiência e aprendizagem. Ao decidir investigar, tem-se a oportunidade de entrar em combate com inimigos e testar alguns dos objetos que podem funcionar como armas, como os galhos de árvores, pedras e braços de esqueletos.  Por tentativa e erro, o jogador consegue obter algumas informações que serão necessárias, como o próprio fato de que as armas, de maneira geral, quebram facilmente.

Algumas possibilidades são abordadas brevemente em diálogos com NPC’s, que mencionam a variação do clima e o efeito que isso pode gerar, bem como a oportunidade de cozinhar e obter determinadas vantagens por meio de refeições que garantem resistência à geada, por exemplo. Outros elementos podem ser encontrados e coletados para ajudar Link em sua aventura, como as maçãs presentes nas árvores, que fornecem vida, e as tochas que conduzem fogo e, consequentemente, auxiliam no estabelecimento de abrigos na floresta.

Existem alguns direcionamentos propositais no início do game, que ocasionam a chegada de Link à primeira torre, onde adquire acesso ao mapa da região e recebe a missão de desvendar o primeiro dos muitos shrines, isto é, dungeons que contém uma série de puzzles que devem ser solucionados para que se possa obter runas que oferecem certos poderes como bombas e habilidades magnéticas, além de um orbe que será útil para uma futura barganha por mais vida ou vigor com a deusa Hylia.

Breath of the Wild cumpre bem o papel de punir o jogador quando este abusa de certas habilidades do protagonista. Ao escalar torres e montanhas é preciso ter um controle sobre a barra de vigor, já que Link cai quando fica sem folêgo, sofrendo um grande dano que eventualmente pode até matá-lo. Posteriormente, ao adquirir o paraglider, é possível se aventurar por regiões altas com mais facilidade, mas não sem um certo cuidado.

Outro ponto que merece ressalva são as influências que a variação de tempo e a própria física exercem em Hyrule, colocando o herói sob controle dessas variáveis quase que o tempo todo.

Algumas regiões são muito quentes ou muito frias, exigindo algumas adaptações para que se possa explorá-las, como as vestimentas que protegem do frio.  Os elementos que envolvem a física permeiam todas as instâncias do jogo, tanto a exploração, o combate como os próprios puzzles. É possível utilizar da força, gravidade e do magnetismo para derrotar inimigos, descobrir baús e outros itens secretos e solucionar os vários quebra cabeças.

Ainda que o game proporcione ao jogador uma experiência mais livre em termos de exploração, em que não há uma ordem fixa que deve ser seguida à risca, há um certo direcionamento proposto pela diferenciação entre as missões secundárias e a principal, o que fornece uma noção quase que implícita do caminho que se deve ser traçado.

A narrativa pode não ser um dos pontos mais fortes nesse título, apesar de ser um dos fatores responsáveis por controlar o repertório do protagonista em sua longa aventura.  A história pode ser vista como mais do mesmo para muitos, mas segue como um fator decisivo para que aquele percurso tenha um significado.

Breath of the Wild é certamente um retorno às origens da franquia Legend of Zelda, um verdadeiro resgate dos elementos que a consagraram no passado. Ao entrar na pele de Link e habitar o mundo de Hyrule, o jogador é convidado a resgatar suas memórias e lembranças, a redescobrir sua história.

Essa imersão ocorre progressivamente, ao passear por montanhas nevadas e desertos, ao encontrar armas melhores, cavalos selvagens, novos personagens e desafios, ocorre, até que se perca a distinção entre ficção e realidade.  O prazer consiste exatamente em perder-se num universo desconhecido, mas nem tanto. Consiste em encontrar e traçar suas próprias possibilidades e caminhos, resgatar lembranças perdidas. Ao construir pouco a pouco essa relação íntima e particular, o jogador preenche a tela branca com suas próprias cores.   

Letícia Motta

Hardcore gamer, punk e antissocial. Fã de RPG's de fantasia, ficção científica e quadrinhos independentes. Passa as horas vagas e as não vagas com seus consoles e PC.

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