Crítica – Nasce uma Estrela

Com excelente química entre o casal principal, Nasce Uma Estrela é o que todo remake deveria ser: Um ótimo balanço entre o original e o novo

Nos momentos finais do longa, um dos personagens do filme diz que música nada mais é do que a mesma história, repetida inúmeras vezes e a única coisa que um artista pode oferecer ao mundo é como ele vê essa história. Se essa afirmação é verdadeira para os protagonistas do filme, é também verdadeira para o diretor, roteirista e ator principal Bradley Cooper, que realiza a melhor versão desse clássico cinematográfico, atualizando o que precisava ser atualizado e mantendo a essência da história.

Jackson Maine(Bradley Cooper) é um astro do rock que enxerga sua carreira na música perto do fim graças a um problema de audição. Em uma noite de bebedeira ele encontra Ally(Lady Gaga), uma desconhecida cantora com um incrível potencial. Eles se apaixonam e Jack a introduz ao mundo da música, onde o relacionamento dos dois é testado pela fama e pelo comportamento auto-destrutivo de Maine.

O relacionamento dos dois é o ponto central do filme e por mais que ele aconteça de maneira muito rápida, a química entre Cooper e Gaga convence de maneira fantástica. O espectador se apaixona por Ally e por Jackson a medida que ambos se conhecem e flertam. E essa é a maior diferença entre a versão de 1976, que serve como a grande inspiração para o trabalho de Cooper. Enquanto Kris Kristofferson, protagonista da versão de 76, é um beberrão grosso e pouco carismático, Bradley Cooper constrói um personagem romântico e solitário. Esse é o melhor acerto do filme, que ao conferir tamanha sensibilidade ao protagonista, nos faz sofrer junto com Ally enquanto Jackson luta contra seus demônios interiores. A atuação vocal de Cooper é incrível, transformando sua voz comum na voz de um cantor que fuma e bebe desde os 13 anos de idade. Seu sofrimento é palpável, e traz uma ótima representação da gravidade do alcoolismo, sem romantizar ou culpar a vítima.

Já Lady Gaga nos apresenta uma moça humilde e mundana é curioso enxergar tanta  simplicidade na cantora que outrora fora tão conhecida pelo excesso. Todavia, é quando Gaga começa a cantar que se entender o motivo pelo qual ela foi escolhida para o papel. Não há como sair do cinema sem se emocionar com as músicas cantadas pela estrela do pop.

Cooper se preocupa em trazer o filme para os dias atuais e coloca diversas questões sociais como plano de fundo, das drags que cantam com Ally, a masculinidade tóxica de Jack com seu irmão, Bobby (Sam Elliot), que mal conseguem demonstrar o amor que um sente pelo outro de maneira direta. Ainda assim, há alguns escorregões por parte do filme. Quando o astro do rock se encontra em um dos seus piores momentos, ele é resgatado por um amigo de longa data, interpretado por Dave Chappelle, e os dois tem uma conversa sobre a fama e o comportamento destrutivo de Maine. A escolha de Chappelle para tal papel não é à toa. O comediante americano, considerado por muitos um dos maiores comediante stand-up de todos os tempos, se afastou dos palcos e dos tabloides por quase dez anos, pois não sabia lidar com a fama. Por mais que a escolha de Chappelle se deva a sua biografia fora das câmeras, ao não conferir nenhum tipo de história para seu personagem, o filme acaba se utilizando do arquétipo conhecido como “Magical Negro”, onde um personagem negro, sem qualquer importância na trama, aparece para guiar espiritualmente o protagonista branco. Infelizmente, esse tipo de artifício de roteiro ainda é utilizado nos dias de hoje, por mais progressista que sejam os roteiristas.

O personagem de Cooper também frisa, a todo momento, que o importante na música é ter algo a dizer, ter uma mensagem. Ao decorrer do filme, quando Ally passa a ceder a certas imposições de seu produtor musical, Jack se mostra decepcionado com a cantora. Todavia, o filme parece culpar Ally por “se vender”, sem nunca considerar como é mais difícil para uma mulher fazer sucesso do que um homem. Inúmeros são o caso de artistas femininas que só conseguem liberdade artística após passarem pela “fórmula da música pop”, cedendo parte de suas mensagens para “agradar” o público e os produtores. Já artistas masculinos tem a vida mais fácil quando o assunto é autenticidade.

Com direito a inúmeros cameos e figuras e produtos conhecidos do mundo do entretenimento, Nasce Uma Estrela aborda a fama como uma faca de dois gumes. Por um lado, há  o poder e a possibilidade de mandar uma mensagem que impacte o mundo, por outro lado, a solidão e o isolamento que assolam os famosos. E é através do design de áudio que tal dicotomia é capturada. Quando Jackson ou Ally se encontram no palco ou em algum ambiente onde sua fama é presente, o som é alto e preenche a sala do cinema. Já quando eles estão sozinhos, quase não há som que não seja a voz dos dois. Jack Maine sofre de um problema de audição que o impede de continuar a tocar e é exatamente essa fragilidade, a de não conseguir ouvir, que se faz presente em todas suas cenas emocionais com Ally. O elemento que o desconstrói como astro do rock e o torna falho é exatamente o que o aproxima de seu amor, tornando-o humano.

Com rimas visuais interessantes, a direção de Bradley Cooper é sólida, por mais que às vezes se entregue ao melodrama exagerado. A música, parte essencial de um musical, é muito bem utilizada e as letras são relevantes ao que está acontecendo na trama do filme, e são extremamente agradáveis aos ouvidos.

Em um filme que trata sobre os perigos da fama e os exageros que podem levar a ruína de um astro, é o romance dos protagonistas e a sua relação humana que cativa e emociona o público. Com atuações excelentes e um drama que convence, Cooper mostra que tem uma mensagem importante a oferecer ao mundo e consegue fazer a melhor adaptação que essa clássica história já teve.

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